terça-feira, 18 de março de 2014

Poema - Tostado Malacara

Tostado Malacara
                                                           Poesia Crioula
Miguel Arnildo Gomes


Em um determinado tempo atrás
Comprei um potro tostado
Quando a montar dos dois lados
Nunca me negou estrivo
Mais se parecia um saci redivivo
Um serelepe irrequieto
Pra ser sincero ou correto
Jamais encontrei outro igual.

Mais tarde deixou de ser bagual
A receber castração
Por tornar-se de minha estimação
Também de excepcional valia
Pela imensurável serventia
O amarrei nos tentos do meu coração.

É um cavalo exuberante
O qual não quero diminuir
Junto ao quaro de dormir
Em momentos de ousadias
Fiz a sua estrebaria
Construída com tabuas de pinho
De onde sempre tratei com carinho
O animal que encilho.

Dando-lhe alfafa, aveia, milho
E cenoura por sobremesa
Sem me importar com despesas
Que poderão advir
Pois outro igual, esta por vir
Em toda esta redondeza.

Este animal originou-se
Das raças Crioula e Quartodemilha
Que apartei de uma tropilha
Por ser o mais belo e ostentoso
Nas guampas de um boi barroso
Joguei a primeira armada
Quando o boi em disparada
Cruzou por dentro de um valo.

Eu enriba do cavalo
Me fiz rei neste momento
Já cheio de argumentos
Fui segurando aos pouquitos
Pra depois pregar um grito
Ta preso o bicho nos tentos.

Virei pra frente a guaiaca
Passei os cobres pro dono
Que era um taura com entono
E jeito de gente graúda
Onde sem precisar de ajuda
Efetuei solito a transação
No final desta questão
Que foi fração de um segundo.

Me senti afinal, dono deste mundo
Quando a partir daquele dia
Minha vida passou a ter regalias
Em uma felicidade que a nada se compara
Quando levei a cabresto o malacara
Para morar pra sempre em minha estrebaria.

Jamais conheci outro igual
 Bem ágil mas de extrema confiança
Servindo ate para as crianças
Pra ir ao povoado ou na venda
Buscar alguma encomenda
 Mas sem precisar de retovo.

Comprar um bico pro guri mais novo
Quando a situação nos reclama
Alguns palmos de fumo em rama
Urinol, querosene e Lampião
Dando-nos nítida impressão
Que tudo é a pedido da patroa
Mais um frasco de canha, da bem boa
Pra nós beber com limão.

Quantas vezes que até nem me lembro
Em que venci torrenciais e enchentes
Só pra mostrar pra minha gente
O quanto eu era gabola
Hoje a própria saudade me consola
Não desmerecendo a ilusão de moço
Quando dava tapinhas no pescoço
Agradecendo ao tostado.

A me sentir um herói condecorado
Sem ser agraciado e sem sutilezas
 Quando retornava a correnteza
Para a minha redenção
Sentindo a notória convicção
Onde a própria alma se lava
Em triunfos regressava
São e salvo pro galpão.

Sem fazer comparação
Porque a nada se compara
O meu tostado malacara
É um fenomenal cavalo
Com ele nunca errei pealo
Onde o entusiasmo se agarra
Pealando até de cucharra
E a jogar de sobre lombo
Em tempo algum levei tombos
Em meu trabalho ou na farra.

No rumo da incerteza
É onde o ginete se estampa
É donde a vaidade se acampa
Sem dar um beliscão de espora
Disparando campo a fora
No linear de um arremesso
Onde o cavalo bom tem preço
Onde a verdade não se ignora.

Quantas vidas a mais originou-se
Em que a natureza se propõe e realiza
Onde a Inteligência se notabiliza
A compararmos humanos e irracionais
A confrontarmos somos todos animais
Apenas diferentes na faculdade de entender.

Onde desprovidos da magia do saber
São eles impulsionados pelo poder do instinto
A relinchar quando estão famintos
A pedir rédeas em momentos de euforia
A demonstrar que são passíveis de alegrias
Sempre guiados pela força do instintivo

Até parecem-se com duendes redivivos
Que voltam á tona em plena era espacial
Simbolizados de maneira superficial
Pelo meu Malacara das quatro patas brancas
Com uma mancha tordilha sobre a anca
Numa gravura projetada ao natural

A pressentir éguas em cio
Ainda se assanha o tostado
Por vezes ignorado
Por vezes incompreendido
Radicalmente adormecido
A exercitar a própria peça
Eu já fiz até promessas
Pro nego do pastoreio
Para que o pingo dos meus arreios
Se conscientize de uma vez.

Mas se um dia mil proezas fez
A tornar-se evidente
Que passe a viver o presente
Sem renegar seu passado
Ao não se tornar mal falado
Pela razão fundamental
Ou pelo principio mais cabal
Para que não recobre os tempos de outrora
E passe a viver unicamente os dias de agora
Esquecendo os tempos em que foi bagual.

Quanta china carregou
Na garupa o malacara
Com uma mansidão bem rara
Mas se precisar chomisco
Mais se parece um corisco
Riscando o céu do universo

No resumir dos meus versos
Que dão vazão a minha vida
Volto na mesma medida
Ao assunto mencionado
Referindo-me ao tostado
O meu coração dispara.

Quando com a verdade se depara
Só em pensar que o malacara
Pra sempre não vai viver
Mas o dia em que ele morrer
E se bandiar para o além
Na rudeza do meu canto
Eu suplico a meu santo
E sintetizo na poesia
Que minha vida tornar-se à vazia
E que eu quero partir também.

Caramba, barbaridade
Porque a aflição me invade
Onde a emoção me judia
Seria a maior covardia
Bater num pingo de ouro
Uma relíquia, um tesouro
Que não se compra a revelia
E não se encontra em pulperias.

Por ser de extremo valor
Não se amarra em cabanas
Porque a má sorte é tirana
Traiçoeira e sem compromisso
Podendo até virar feitiço
Nos olhos de uma xirua
Que por vezes se insinua
A querer enfeitiçá-lo.

Por isso que ao amanoncea-lo
O que faço diariamente
Eu peço ao onipotente
Pela fé em que me seduz
Para que o mundo torne-se só de luz
Pela misericórdia do senhor
Para que eu morra na paz e no amor
Para que abençoe também o meu cavalo.


História - Um bugre maragato

UM BUGRE MARAGATO

Miguel Arnildo Gomes

Era um domingo, véspera de carnaval do ano de 1952. O dia apresentava-se extremamente chuvoso, mas nada que pudesse impedir as festividades comemorativas, pela abertura da nova capelinha de São Roque. Naquele aconchegante recanto afastado a 15 km da Paróquia de Cristo Rei de Não Me Toque – RS, onde centenas de fiéis católicos se aglomeravam, para participar das festividades alusivas a inauguração do referido e modesto templo. Eram na sua grande maioria, famílias de arraigados agricultores e criadores, que faziam exclusivamente do amanho a terra, plantio e colheita, o seu único e incontestável meio de sobrevivência, quando além do sustento da própria família, ainda decididamente colaboravam com seus produtos agrícolas mini pecuária para o abastecimento dos pequenos, médios, e principais centros consumidores. Fastimilhano José dos Reis há este tempo já era um cidadão cinquentão, pessoa radicalmente humilde e pobre e que casado já há quase 30 anos com Isabel, sua eterna namorada, jamais durante a vida conjugal tiveram filhos ou possuíram alguns bens de capital. Talvez um pequeno cãozinho guaipeca ou totó como se dizia, mais uma gatinha que Isabel a chamava carinhosamente como Mitia. Também jamais em sua vida, este referido senhor fora chamado pelo próprio nome, pois para todas as pessoas que o conheciam, indistintamente era conhecido apenas como Fastimiano ou Bugre. Isabel levando-se em conta seus cabelos caracolados, talvez pela semelhança a lã de ovelha, dava-se então o apelido de Bequinha ou Beca.
Fastimiano e Beca não possuindo moradia certa ou particular, residiam no próprio local de trabalho, onde munidos de machado, foice, serrote, mais enxadas, pás, cunhas e facão, além de abrir roças, eram especializados em preparar tabuinhas para cobertura de casas e galpões.
Era um casal extremamente carismático, denotadamente amados, muito principalmente pelas crianças. Sempre morando a beira do Arroio Cotovelo, mais para cima, ou mais para baixo, na margem direita, mais muito principalmente na margem esquerda.
Quem não se dispunha na época em ceder uma pequena casa, para que o Fastimiano e a Beca, por algum tempo pudessem fixar suas residências. Pois eram eles, compadres de muitos outros casais de agricultores e proprietários rurais, com quem conviviam na mais perfeita paz e solidariedade humana. Fastimiano mesmo ainda correndo em suas veias o sangue congênito, jamais foi seguidor da cultura nativa de seus avós, os quais acreditavam piamente em Nhandcy (a sua mãe terra).
Quando guiados pela força de Kaiuã (dom da palavra), chegavam ao encontro de Nhanderuvuçu (o seu Deus pai).
Quando ainda encontravam através de seu Pajé, feiticeiro indígena Murubixaba, energia suficiente para implorar a Tupã (a força dos ventos e dos pássaros), para assim poder estar totalmente livre e protegido do furor de tempestades e raios. Fastimiano nem mesmo foi sabedor, que sua cultura religiosa nativa, havia sido arrebatada de seus ancestrais indígenas. Quando os pregadores da companhia de Jesus conseguiram com extrema habilidade, retirar de seus povos, o Deus Tupi – Guarani, para assim poder introduzir entre os mesmos, o nosso Deus branco, como passou a ser chamado pelos nativos.
Ao longo de sua vida, talvez também não foi sabedor que a mesma Santa Virgem Maria, para quem eles tanto rezavam e acendiam velas, fora um dia a igualmente conhecida como Tupancy (Senhora Protetora), para seus avós Guaranis. Fastimiano e Beca, tinham como hábito, visitar diariamente seus amigos e que eram em razoável numero, quando o bugre velho costumava identificar as crianças pelo próprio apelido familiar. Também eram eles participantes ativos de reuniões sociais, quando se vestiam adequadamente, bem como em encontros ligados ao catolicismo em geral e celebrações festivas. Mas como nunca possuíram recursos financeiros suficientes para adquirir um receptor de radio, que na época devido aos elevados custos, constituía-se como uma raridade e restrito apenas para os casais mais abonados. Marcavam-se então presença obrigatória em todas as terças e quintas – feiras, nas casas de compadres e comadres a partir das 19 horas para poder ouvir a musica caipira, gênero musical pelo qual se demonstravam ser extremamente apaixonados, quando estas musicas eram interpretadas ao vivo pelos três famosos batutas do sertão, Torres, Florêncio e Rielli Filho. Isabel, dentro de seus princípios naturalmente hábeis e de extrema paz, procurava viver uma vida unicamente voltada para a agudeza de espírito e profundo amor ao próximo. Enquanto Fastimiano, apesar de sua perspicácia, mesmo a não ser eleitor, em todas as reuniões festivas, denotadamente usava sobre o pescoço um tradicional lenço vermelho, querendo com isso simbolizar o partido libertador, de ideais maragatos e ideologias semeadas entre nós e ao longo da história, pelo tribuno Gaspar Silveira Martins.  Sendo este conjunto de idéias, ainda nos anos 50, passiveis de milhares de seguidores, principalmente no interior do estado do Rio Grande do Sul. No ano de 1952, ainda era o Presidente da Republica o Doutor Getúlio Dorneles Vargas, gaúcho de São Borja – RS, que foi eleito por larga margem de sufrágios em 03 de outubro de 1950. Quando derrotou pelo voto popular (principalmente dos mais humildes), o seu principal antagônico e sempre combativo Brigadeiro Eduardo Gomes da UDN. quando se dizia popularmente na época, que seria este o candidato que representava as três forças armadas. Exército, Marinha e Aeronáutica.
Depois dessa histórica eleição, o imortal presidente Getúlio Dorneles Vargas levando-se em conta sua profunda intrepidez e carisma junto aos humildes, voltava ao poder, agora nos braços do povo. Pois ele já havia governado o País durante 15 anos, a partir de um movimento armado em 1930, quando em 1945 foi deposto por um golpe militar.
Getúlio Vargas também não concluiu seu segundo mandato, quando novamente, não conseguindo suportar tamanha pressão e muito principalmente militar, suicidou-se em seu próprio palácio em 24 de agosto de 1954.
Na tradicional festa de São Roque, que habitualmente se comemora a cada dia 16 de agosto, naquele ano de 1952, dado ás circunstâncias da inauguração da nova capelinha, a mesma foi realizada com grande ênfase no mês de fevereiro, véspera de carnaval. Meu pai e minha mãe particularmente por motivos de luto familiar, não se fizeram presentes naquela reunião comemorativa. Coube a mim na companhia de meu irmão Antônio Carlos e irmãs mais velhas, prazerosamente representar nossa família, naquele ambiente festivo e de cunho significativamente familiar e religioso. Eu me encontrava excepcionalmente feliz naquele domingo chuvoso. Quando passava a chover mais intensamente e ainda a não haver pavilhão no local, o povo se dividia, cabendo as mulheres e crianças a ocupar as dependências da igrejinha, quando então conversavam de maneira imensuravelmente Cortês e em determinados momentos voltavam a fazer suas preces oferecidas a São Roque, o Santo padroeiro e protetor dos pequenos animais. Enquanto isto os homens e jovens de ambos os sexos se aglomeravam nas dependências da escola municipal Tomé de Souza, que se divisava ao lado da referida capela. Eu na ânsia dos meus 12 anos e no afã de ouvir a excepcional musica, procurava mesmo aos empurrões, me posicionar o mais próximo possível, para ouvir um dos mais renomados conjuntos musicais da cidade de Carazinho, a constatar que ali estava pela primeira vez e gratuitamente a banda Fossati que era regida pelo professor Canela, e sobre o comando do proprietário da mesma, o senhor Celeste, quando desta vez também enxertados pelo renomado acordionista, Guri da Constância. Era naqueles tempos um conjunto de ótima qualidade e reconhecidos por qualquer um, mesmo que fosse também eu no momento, talvez imaginado por muitos, assim como realmente era, apenas mais um singelo e insciente conhecedor de teoria musical. Quanto a gêneros musicais, este variava dentro da musica popular brasileira, entre outros ritmos, sambas, boleros, baiões, bem como musicas portenhas e até mexicanas, além de diferentes marchinhas carnavalescas, como foi Chequita Bacana, Taí, Ó Jardineira, Guerra da Coréia...
Mas como naqueles tempos ainda se estava longe de se ter luz elétrica por aquelas bandas, as comemorações festivas eram realizadas em locais impróprios, a não haver lampiões, perdurava-se apenas enquanto houvesse a luz do dia. No entanto, enquanto a noite já se aproximava rapidamente, eu ouvia os chamados insistentes de meu irmão com as seguintes intimações:
“Vamos embora tchê, porque já é tarde demais!”.
Mas, quando nos preparávamos para imediatamente deixar o local, fomos em um momento surpreendidos com um pequeno tumulto localizado, quando percebemos a alguns metros de distancia, um grupo de homens e mulheres caminhando lentamente, com pedidos de:
“Atenda-me, por favor, Fastimiano”, enquanto o mesmo retrucava em altos brados:
“Eu não atendo a ninguém, e prometo que pego aquele político meia tigela e raspo o bigodinho nojento dele com o meu facão, porque sou libertador e não abro mão de meus ideais maragatos!”.
Quando ainda continuava o mesmo:
“Eu pego aquele baixinho mentiroso, que só promete e nada faz pelos pobres, em qualquer volta da estrada e viva o partido libertador. E viva o partido libertador!”
Mas num instante aproximou-se do bugre velho o inspetor de quarteirão, senhor Firmiano de Quadros, quando energicamente lhe questionou:
“Mas quem você quer pegar na primeira volta da estrada, Fastimiano, e raspar o bigode? Pois pelo que sei, aqui só tem pessoas boas e de paz”.
Fastimiano a ser efusivo, em momento algum deixou de ser transparente, a sair com mais esta:
“Eu prometo sim, e lagramputa algum me interrompe, porque na primeira volta da estrada eu pego o Getúlio Vargas e raspo o bigodinho nojento dele com o meu facão de lascar tabuinhas”.
Esta foi, portanto, mais uma façanha do Fastimiano, bugre velho, querido por todos, mas por vezes não podia ver bebidas alcoólicas em sua frente porque a tomar todas, se descontrolava totalmente e jogava pelo gargalo qualquer espécie de sensatez, razão e até mesmo antigas e sinceras amizades.
Os anos passaram-se como sempre tão depressa, quando a Bequinha, sua deusa, se foi primeiro, depois o bugre Fastimiano morreu com mais de 90 anos, quando estava internado em um asilo a exemplo de tantos outros, quase esquecido, deixou entre nós, apesar de algumas fraquezas momentâneas e próprias do ser humano, um perspicaz exemplo de ternura e afeto, principalmente oferecidos ás criancinhas que pela transparente impressão deixada entre nós ao longo de sua vida, que ele tanto amou.
Eu acredito e tenho até plena convicção que o bugre Fastimiano, foi apenas mais um entre os milhares de descendentes das tribos guaranis, que habitavam a margem esquerda do Rio Uruguai, região missioneira, conhecida também pelos descendentes espanhois, segundo o historiador Luis Carlos Barbosa Lessa, através de seu consagrado livro Rodeio Dos Ventos, como País Del Tape. Com a catequização dos indígenas, dos Sete Povos das Missões, os nativos guaranis começaram então a perder suas origens ou raízes. Anos mais tarde, com a invasão das missões simultaneamente pelos exércitos de Portugal e Espanha, foram os remanescentes selvagens que restaram dos combates, enxotados do seu habitat natural. Então sedentos e famintos, passaram a perambular pelo continente de São Pedro, em busca de seus antigos hábitos e cultura religiosa. Sonhavam eles, que um dia poderiam retornar em toda a sua plenitude, contando com a força de seu Deus Pai (Nhanderuvuçu) e Mãe Terra (Nhndci), para a terra, as matas e os próprios rios que lhes foram roubados.


Poesia - O Paraná de todos nós

O Paraná de todos nós

Nasci do bojo dos tempos
Sem atribuição, preceitos ou diretrizes
Em terras que se prediziam fecundas
Semeei profunda, minhas raízes

No aconchegante seio de Nhandecy
A inspiração simboliza
Buscando força na origem
A própria ascendência se eterniza

Crescido no divisor de águas
Separando o Cinzas e tibaji
Trilhei por Ibitiraquira
E morei no pico do Marumbí

Segui o caminho de Pai zumé
San Tomé ou Peabirú,
Margeando os rios Ivaí
Piquirí, Tibagí e Iguaçu

Iara é a mãe das águas
Mas ceucy que fez brotar
Verdes pés de erva mate
No sertão de Guairá

Loreto mais Santo Inácio
E outras grandes povoações
Foram símbolos evidentes
Das notórias reduções


San Pablo, Conseepción,
San Miguel, Jesus Maria
Republica teocrática Guarani
Uma idéia que se esvazia

Vila rica do Espírito Santo
Nas margens do Ivaí
Deixou seus sagrados rastros
Na foz do Corumbataí

Vi os primeiros povoadores
Rumo ao sul pra se fixar
Ao sair de Cananéia
Chegando a Paranaguá

Vi a coivara plantada
De xaxo ou de saraquá
Ouvi na eira a batida
De vara ou de manguá

Fui feiticeiro selvagem
Em Atalaia vivi
Em palmas lutei ao lado
Do destemido Viry

Fui o caminho das tropas
Fui Rio Chopin sem dar Vau
Ouvi o grito do ronda
E o canto do Urutau

Percebi a angustia do rondante
Na imaginação que flutua
Implorando por ajuda
Em noites escuras e sem lua

Vivi o ciclo do ouro
Da agricultura e pecuária
Ouvi o canto da gralha azul
Por entre as matas de araucárias

Agora, a conjeturar ainda vejo
Em relances, fantasias e memórias
A fixão em desvanecimentos e desejos
A beber água nas cacimbas da história

Conheci Antonio Bicudo
Com familiares e pertences amais
Oferecendo apoio aos exímios tropeiros
Que percorriam os campos gerais

Ouvi o ruído das carroças
Com a chegada do imigrante
Era o progresso rondando
O meu estado gigante

Sou descendente Caingangue
Que habitou matas virgens
Assimilei outros padrões culturais
Sem renegar minhas origens



Vi o caboclo araucariano
Que do borralho saindo
Pra defender foi à lapa
E enfrentou o Gumercindo

Ainda hoje retumbam nos ares
Numa sinfonia de muitas canções
Neste relato de ontem e de agora
Em mais um duelo entre gerações

Escutei o rumor das sete quedas
A algumas léguas de distancia
Ouvi a voz da civilização
A ocultalas com arrogância

Aos ambiciosos destruidores das matas
A sua proteção, Deus Tupã e Tupancy
Não poluam vertentes e cascatas
É um protesto de origem Tupi

A peregrinar pelo passado em riste
Virtuais ideologias transponho
A evidenciar novos tempos
Que se deslumbram felizes e risonhos

Mas hoje afinal quem eu sou
Só a nossa história pode contar
Venho do fundo do tempo
Sou o rico, glorioso e sempre honrado estado do Paraná


Viva os pinheiros remanescentes
E verdes matas de Taquaraçu
Salve a própria fauna reprimida e sofrida
E viva o nosso parque nacional do Iguaçu

Do baú primoroso do tempo
Reuniremos razões convenientes
Ao unir-se o passado ao presente
Em uma réplica incontestável e sagaz
De um povo ordeiro que se satisfaz
Em um estado que já nasceu gigante
Que se aprimora, se renova a todo instante
Este é o Paraná de todos nós
O Paraná do sonho de nossos avós
O Paraná do trabalho, do amor, da vida e da paz



Miguel Arnildo Gomes

sábado, 5 de outubro de 2013

Poesia - A reeditar o tropeirísmo

No bimbalhar dos cincerros
Como um clarim ao relento
Deu ênfase e deu andamento
A sobejidão das tropeadas.
Nas rondas, nas arribadas
qual um rondante aflito
A emitir estridentes gritos
Em esplêndidas madrugadas.

Hoje em tropeadas de sonhos
Onde a forja do tempo tempera
Em homenagens sinceras
Por façanhas imortais
A retornar-se jamais
Ao longo de algumas trilhas
Sobre o dorso das coxilhas
Por serras e por matagais.

Quem diria que o tropeiro
De maneira tão crucial
Dormiu até em lamaçal
Ao longo dos descampados
Sem ter seu nome lembrado
Mesmo em súbitos momentos
A morrer no esquecimento
E não ser condecorado.

Das manhãs primaveris
Às tépidas tardes setembrinas
Emoldurou-se as campinas
Até as caravanas de abril.
Fez bem mais forte o Brasil
Sem empecilho ou cancela
Deu-nos alicerce e rumo
Serviu de base e aprumo
À pátria verde e amarela.

Cristóvão Pereira Abreu
Foi um tropeiro completo
Usando o mesmo dialeto
Com inteligência e brilhantismo
Foi o precursor do tropeirismo
Sem precisar de balizas
Pra desbravar o sertão
Quando a partir de então
A marcha se concretiza.

As antigas taipas de pedras
Erguidas entre o rochedo
Pra história não há segredo
Serve de pompa ou ostentação
Dando-nos nítida impressão
Que Deus as criou soberanas
Entre o deserto e choupanas
Neste aparato de emoções
Sem geometria ou divisórias
Delineando nossa trajetória
Pra futuras gerações.

Sob o esplendor das colinas
Surgem paisagens tão belas
Por entre sonhos e aquarelas
A própria emoção nos conduz
Como um candeeiro de luz
No colorir de arrebol
Na configuração, âncora e farol
Em um elo de amor e carinho
Nos faz traçar um só caminho
A iluminar nossos destinos
Sendo ela neta do biriva Justino
Outro sim, eu neto do tropeiro sinhozinho.

Bravos birivas matutos
Intrépidos gaúchos da pampa
Onde figuras se estampa
Onde culturas se ermana
Como a buscar das cabanas
Sem discernimento ou critério
A unir-se o peão xucro e gaudério
A intrepidez de outros cueras
Gente que tanto se esmera
Junto a estes povos que canta
Que unidos se agiganta
Numa nação que prospera.

A proferir minha prece
Vou pedir ao bom pastor
Para um dia quando me for
Eu leve em meus aconchegos
Cama com poncho e pelegos
Prenda linda e chimarrão
No final desta oração
São esses os anseios meus
Onde minha alma se acampa
Que os intrépidos gaúchos da pampa
E matutos peões birivas
Repontem bem suas comitivas
Lá em cima, aos pés de Deus.
                  
 Miguel Arnildo Gomes.
                            (Vô Miguel)


História - Baú Rememorativo

Cavalo bem encilhado, dois grandes pelegos brancos, badana couro de Pardo, peitoral de duplos e resistentes couros de Anta, cabeçada, cabresto e par de rédeas chatas produzidas também a partir da pele de Tapir, e laço amarrado nos tentos. Ao chegar, amarrou seu pingo com o cabresto do buçal sobre a forquilha da velha Aroeira, que fazia sombra ao portão de tabuas do piquete dos terneiros. Boleou a perna e em passos largos aproximou-se do rancho.
Da varanda da velha casa de madeira, com também cobertura em tabuinhas de pinheiro, Hipólito e Mariazinha, podiam observar o homem ir se aproximando. Chapéu de abas largas quebrado na testa, sobre o pescoço lenço vermelho, além de bombacha, botas e tirador de couro de Pardo, com longos flecos amarrado a cintura, bem a estilo dos campeiros da época. Sobrando, se podia ver sob a bainha, a Adaga em cabo de chifre, com folha de mais ou menos palmo e meio, que pela aparência deveria ser da marca Coqueiro. Vinha arrastando as esporas, ao chegar, tirar o chapéu e emitir um leve sorriso. Pronunciou apenas um educadamente “Buenos dias”, quando o proprietário senhor João, ao responder o cumprimento ainda solicitou, “Te aprochegue seu”, “puxe o banco e permaneça à vontade”. Após algumas cuias de mate, ampla refeição de arroz e feijão com charque, além de mandiocas fritas, seguidas de leite com coscos. A seguir, senhor João aperou cuidadosamente seu cavalo, montou e saiu ao tranco, ao lado do recém chegado, conversando moderadamente, pois era ele pessoa um tanto esclarecida, que apesar de interiorano, costumava fazer inveja a muitos indivíduos do povoado. Talvez pela postura e maneira fácil como que se comunicava. Quando constantemente, procurava viver bem informado, de tudo o que ocorria em seu mundo, bem como em além fronteiras, sendo assinante de um dos mais tradicionais e conceituados jornais do estado. Quando estes vindos da capital, conseguiam chegar ao destino, até com dois dias de atraso, quando o senhor João ordenava a um guri, ao atravessar o rio através da Balsa, para retirar edições, que a ser transportadas por ônibus de linha, eram deixadas na venda do senhor Raimundo Scherer. Em casa, Hipólito e Mariazinha, se mostravam por demais impressionados com a estampa do campeiro que chegou, almoçou e depois seguindo a tranquito, sumiu-se na poeira ao longo da estrada. Ainda comentavam-se entre ambos, sobre a beleza do cachorro de cor parda e rabo enrodilhado, que também com certa desenvoltura, troteava a sombra do cavalo, na medida do possível procurando proteger-se dos reflexos danosos dos raios solares. Hipólito e Mariazinha, com suas mentes repletas de curiosidades, perguntavam então para sua mãe, senhora Marta: “Mamãe, quem é aquele homem que chegou, chimarreou, almoçou e depois saiu ao lado de papai? E para onde foram?”
Dona Marta, procurando a satisfazer a curiosidade das crianças, respondeu: “Este homem, meus filhos, tratasse de negro Henrique, que é filho de tio Emilio, que foi escravo de um irmão de meu avô”.
Hipólito, não sentindo-se totalmente esclarecido, procurando saber algo que tornasse mais convincente, já com alguma insistência voltou a indagar: “Mas para onde foram? E o que fazer?”.
Dona Marta, sempre atenta à curiosidade dos filhos, voltou a fazer-se compreender, fazendo ponderações de maneira um tanto mais esclarecedora: “Pois ainda ontem, o papai de vocês comprou mais uma vaca para nós tirarmos leite, e hoje resolveu convidar este crioulo, para ajudá-lo a buscar, quando a mesma se encontra na invernada do senhor Forquini, em São João do Gramado”.
Algumas horas depois já ao anoitecer, Hipólito e Mariazinha, sentiam seus desejos de saber totalmente correspondidos, ao ver o papai regressar juntamente com o companheiro, trazendo presa sobre a armada do laço, uma vaca com úbere bastante volumosa, com quatro tetas também salientes, quando afirmaram ser a mesma da raça Caracu. Para maior alegria das crianças, a referida vaca leiteira vinha acompanhada por um belíssimo terneirinho, (bezerrinho). No dia seguinte, Hipólito, narrou em detalhes o feliz acontecimento a seu irmão Carlitos, que se encontrava na escola no dia anterior. Carlitos, guri já mais maduro e experiente, a dar explicações para seu irmão, avaliava ser este negro Henrique, também proprietário de um galo preto, que calçado com puas de aço num tambor de rinhadeiro, consegue ser de um arrebatamento totalmente devastador. Comentando que certa vez, num tambor de rinhas do senhor Luizinho Dalavechia, o dito galo preto, deixou em curto espaço de tempo, um famoso antagonista que por ali se atreveu, com a cabeça totalmente destroçada e fora de combate, ainda antes do primeiro banho. Carlitos, a continuar a comentar, ser este crioulo, considerado em toda esta profícua região, como o campeiro mais ginete, por isso possuidor de uma raríssima habilidade, que consegue facilmente a dominar os mais aporriados baguais, quando para fazer bonito, costuma em carrreiradas montar e riscar de esporas no melhor sistema gaudério, por entre verdadeiras multidões, sem levar um único tombo desses ferozes e diabólicos animais. Desferindo-lhe por sobre as orelhas, ensaiados golpes de mango, reduzindo-se o velhaquiador a titubear.
Dias depois, quando os dois irmãozinhos transitavam pela estrada, logo acima das palmeirinhas, cruzou por eles o mesmo negro com jeito arrogante, que ao confrontar-se em marcha lenta, emitiu-lhes um quase debochadamente Buenas Tarde. Carlitos, voltou então a fazer referências, citando o dito negro Henrique, quando para o olhar quase incrédulo e curioso de Hipólito, ponderou: “Ele é ordeiro, tem disciplina, também é respeitador, salvo o que se sabe de uma vez em que ao tomar umas canhas, se atreveu a provocar o nosso avô em frente ao seu rancho quando ele já era bem velhinho, e sem mais energia física suficiente, para poder enfrentá-lo”. Carlitos, logo após, voltou a fazer conjecturas, a relatar que certo dia, em carreiras de cancha reta lá na raia do hoje finado Crescêncio Bizarro, três desaforentos, por motivos não bem esclarecidos, resolveram a fazer-lhe uma afronta.
“Mas a seguir o que aconteceu?” indagou Hipólito curiosamente. Carlitos, voltou então a descorrer: “Mas num pronto tinir de ferro branco, negro Henrique, em curto espaço de tempo, colocou os três desafetos no mato”. Cortando um na ponta do queixo, tirando a ponta da orelha do outro e cortando o terceiro de alto a baixo, com um risco que começava no peito, cruzando por sobre o umbigo e atingindo as partes baixas.
Hipólito habituava-se a observar em mínimos detalhes, tudo o que ocorria a sua volta, uma situação que muito lhe intrigava era a questão de tio Estácio Lírio de Oliveira, negro velho que um dia também foi escravo, haver construído um belíssimo violão, sendo que o referido trabalho teve origem a partir de um pedaço de tronco de corticeira. Onde o sertanejo a fazer uso, aprendeu a executar com extrema maestria, o clássico TRISTEZA DO JECA, mais uma valsa que seria de sua própria autoria, quando a não conseguir aprender outra, jamais saiu destas. Mas o fator que realmente mais chamou atenção de Hipólito era o motivo determinante para que tio Estácio, possuísse uma matilha de cachorros. O Respeito, o Guri, a Lorota, a Patrulha e o Colibri, que mesmo alimentados exclusivamente com milho cru, conservavam-se gordos e sadios, com pelos finos e lustrosos. Hipólito ao analisar tal conjuntura, por vezes perplexo na sua intimidade ficava se questionando, que apesar de toda esta segurança que já lhe parecia o máximo, ainda tio Estácio fosse obrigado a fazer uso de uma ferradura, colocada sobre a porta da varanda, para impossibilitar que o mal olhado ou mesmo o feitiço, viesse a bater em sua porta e adentrar pelo interior de seu rancho, a destruir sua felicidade e sua vida. Outra questão empactante que despertava imensa curiosidade de Hipólito, era a decisão do negro velho em colocar na ponta de uma estaca, para proteger sua roça de milho, uma volumosa cabeça com aspas de boi franqueiro, para dificultar que o olho gordo viesse penetrar em sua plantação, e consequentemente lhe causar sérios prejuízos ou danos. Hipólito costumeiramente passou a sentir muito medo, de tudo que havia em sua volta e que julgava ser perigoso. Medo de ser atacado e até devorado por cães bravos, medo de ser carregado pelas correntezas dos rios, enxurradas e enchentes, medo das chuvas fortes, ventos, relâmpagos e trovões, medo das cobras, lagartos e ratos. Mas acima de tudo, o seu maior temor e que ainda mais lhe torturava, era o pavor de assombrações, ante a reação imaginaria quanto ao temor de almas penadas de muitos campeiros e guerreiros, quando estes havendo morrido no pecado, acreditava que poderiam voltar ao nosso mundo em forma de fantasmas, para atacar os inocentes e pessoas boas e de paz.
O ano de 1946 foi marcado de janeiro a outubro por períodos de chuvas intercaladas, em toda a região do Alto Jaquí. Favorecendo significativamente o desenvolvimento da atividade agrícola, daquela próspera e conceituada região produtora.  Senhor João, destacado agricultor da época, havia sido favorecido com excelente safra de mandioca, em conseqüência farinha e polvilho, este já em menor escala, mais colheita farta de milho, abóbora e arroz, entre outros gêneros, feijão e trigo. No entanto, a atividade mais rentável se caracterizada no ramo de suinocultura, com venda de animais a cada espaço intercalado de 90 dias, que vinham também acompanhados, de excelente produção de feno (Alfafa). Cujas colheitas continuas, não ultrapassavam o espaço de 30 dias. Mas já no inicio de novembro daquele mesmo ano, a agricultura daquela desenvolvida região, sofria o ataque inesperado de imensas nuvens de gafanhotos (Epiceno), nome comum aos insetos saltadores, que chegavam talvez aos bilhões. Pragas estas, compostas por uma capacidade invulgar de destruição ou apetite insaciável, quando devoravam sem piedade alguma em questão de uma hora, grandes roças de milho e Alfafa, que haviam sido plantadas com imenso carinho e zelo.
Reforçando ainda mais a calamidade já ali existente, o mês de dezembro daquele mesmo ano, foi assolado por uma estiagem de mais de 30 dias, castigando ainda de maneira significativa a plantação de milho, já por demais debilitada pelo recente ataque de insetos. A água das vertentes sofreu então um quase esgotamento, situação anormal para a época. O arroio Cotovelo (Puitanzinho) com suas águas claras e cristalinas, margeava a propriedade do senhor João, mesmo assim favorecendo de maneira significativa a abundância, deste precioso líquido incolor e preponderante a formação da vida. Devido à escassez de água da fonte, situada nas proximidades da casa, dona Marta, passou então a lavar as roupas no arroio Cotovelo, que fazia divisas de suas terras, no mato e fundo do potreiro. Hipólito, cheio de sentimento de alegria, permanentemente passou a acompanhá-la. O local escolhido por ela, tratava-se do conhecido bebedouro, ponto onde um desenvolvido angico ao desenraizar-se ainda verde, havia se debruçado sobre as águas do volumoso arroio. Então dona Marta, colocando uma tábua sobre os galhos que beiravam a água, sentava-se comodamente sobre o tronco da referida e gigantesca árvore, apoiando-se sob os resistentes e frondosos galhos. Hipólito entretia-se sem parar, enquanto comia Pitangas e Cerejas, também brincando com flores de corticeiras, fazendo delas na sua fértil imaginação, marrequinhas, fazendo com que as mesmas, na sua fantasia, nadassem a beira da água. Em certo dia e no sossego de uma tarde, enquanto dona Marta procurava quebrar a monotonia daquele quase anoitecer, cantando a Valsa dos Patinadores, o menino foi num instante surpreendido com o mergulho efêmero de um pássaro sobre as águas, que talvez em fração de segundo, retornava a superfície, trazendo preso em seu longo bico um peixe de tamanho médio, que no momento lhe pareceu ser um Jundiá.  Neste instante Hipólito voltou a recobrar sua curiosidade, a gritar para sua mãe: “Mamãe, que ave é aquela que mergulhou ai em sua frente e apanhou um peixe do fundo da água, que vai levando não sei pra onde?”. Dona Marta passou então a esclarecer ao menino, que aquele pássaro, é ave Alcedinídia, que se alimenta pelo que sabemos, exclusivamente de peixes e insetos aquáticos, aqui em nosso meio é conhecido apenas como Martim - Pescador, mas em outros lugares é chamado também de Ariramba. Enquanto a noite já se aproximava e dona Marta, rapidamente juntava as roupas já lavadas, colocando-as sobre uma grande bacia de alumínio, instalando também a tabua de lavar, sobre os galhos mais altos de um pé de Sarandi ou Amarilho.
Naquele momento ainda o menino mais uma vez amedrontou-se, ao ouvir o ganido de um animal silvestre, o qual lhe pareceu estar apenas a alguns metros de onde eles se encontravam, isto é, do outro lado do arroio entre as enormes touças de Taquaraçu. Hipólito, então sentindo imediatamente grande pavor, gritou para sua mãe: “Mamãe, de quem é este uivo? Não é cachorro não!”.
Dona Marta também já bastante surpresa e amedrontada, caminhando rapidamente pelo mato em direção a sua casa, procurou justificar ao menino, de quem seria aquela vociferação. Explicando então em voz baixa, que aquele ulular seria do Lobo - Guará, animal carnívoro, que também se alimenta de frutas silvestres e que só ataca pessoas adultas em caso de sentir-se ameaçado. Mas logo ao saírem do terreno inculto, foram mãe e filho mais uma vez surpreendidos, ao avistar para o lado do quadrante sul, uma barra de cor negra que velozmente cobria toda a circunferência. Dona Marta, naquele instante vibrou de alegria, ao insinuar para o menino, que a chuva estava chegando com abundância, e que daria fim a seca que sem piedade alguma, castigava a plantação e os animais. Quando ainda ponderava: “Mas que presente divino estamos recebendo de ano novo”. Ao chegar em casa quando a chuva já caia copiosamente, Hipólito a festejar o final da seca, ainda comentou para seus irmãozinhos, do espetáculo proporcionado pelo Martim – Pescador, a retirar em um mergulho mágico sobre as profundezas do Cotovelo, um peixe comum, usando para isso apenas o bico e o malabarismo instintivo ou natural. A seguir o menino ainda comentou detalhadamente o episodio sobre o uivo do Lobo – Guará, na outra margem do Cotovelo, no mato dos colonos de Boa Esperança, quando arrepiava-se de pavor.
Muitas vezes enquanto dormia na escuridão da noite, Hipólito ante a concepção do perigo imaginário, sonhava estar caindo em um precipício, onde havia muitos lobos extremamente ferozes, quando na ânsia de devorá-lo, emitiam ganidos atemorizantes. Em uma determinada manhã, enquanto Hipólito e sua irmã Mariazinha, brincavam a sombra do arvoredo, foram as crianças repentinamente despertadas com a aproximação de dois touros bravos, que havendo escapados do potreiro do tio Estácio, disparavam o mais rápido possível, na direção exata em que eles se encontravam. Mesmo surpreendidas, as crianças ainda a tempo puderam atinar: “Mas que sorte a Adelaidinha ter ficado dormido dentro de casa”. Enquanto ambos corriam o mais depressa possível na direção de uma grande carroça, que encontrava-se estacionada nas imediações, ainda ouviam os gritos da irmã mais velha, Luzia: “Corram, corram!”Depressa, depressa” “Escapem, escapem!”. Hipólito a fazer juízo de tal situação, foi o primeiro a alcançar a carroça, onde conseguiu subir apoiando-se nos raios de uma roda traseira. A seguir alcançou a mão para Mariazinha, que também procurava evadir-se, quando afinal sãos e salvos assistiram os ferozes animais chegarem, quando pacificamente cheiraram, depois lamberam as tábuas da carroça e finalmente sem ter oferecido perigo algum aos inocentes, sossegadamente retornaram. Muitas vezes a reproduzir-se, Hipólito passava a fazer juízo de tal situação quando se perguntava: “Porque todo este medo? E porque razão não sou também assim como negro Henrique? O  mais destemido entre todos os ginetes. Quando a deixar de ser vulgar, se distingue de seus congêneres, pela rara habilidade de tornar-se admiravelmente capaz de espantar o medo. Quando a um só tempo a se tornar um monstro, consegue quebrar a manha dos baguais mais cruéis: Ainda porque razão eu não ser assim também como este crioulo? O mais abarbarado entre todos os valentes, que talvez em um só sublime momento, consiga reprimir a dezenas de almas penadas ou assombrações, que porventura apresentem-se em minha frente”.
Passaram-se ainda muitos dias, meses, e talvez um ano, quando Hipólito, já mais crescido andando a cavalo, passou também a servir de mandalete, para seus pais, também chasqueiro ou recadeiro como se diziam. Movimentando-se o menino de um lado para outro, usando na maioria das vezes como montaria, apenas além do freio e buçal, mais um pelego e baxeiro. A estrada já lhe proporcionava algo a mais, como por exemplo, se deparar ao longo do caminho, com pessoas de origens, sotaques e características diferentes. Como foi o caso de encontrar-se seguidamente com Cocô e Marciana, casal atípico que sempre lhe despertou inúmeras duvidas e curiosidades. Este casal morava como agregados do senhor Terézio, sendo o mesmo proprietário de cavalos de corrida. O jovem Cocô, como profissional costumeiramente vencia quase todas as corridas que efetuava, tocando com extrema habilidade, quando foi consagrado como atleta por demais prestigiado. O cidadão Cocô, media menos de 1,50m de altura e pesava apenas 39 kg, enquanto sua jovem esposa Marciana possuía 1,85m de altura, pensado aproximadamente 75 kg. Tratava-se eles de um casal extremamente feliz, quando em horas de folga passeavam habitualmente juntos, caminhando lado a lado e de mãos dadas. O espirituoso senhor Cocô, talvez no sentido de impressionar, batia fortemente os pés sobre o solo, no melhor estilo militar. Marciana por sua vez, mulher loira dotada de uma excelente compleição física, caminhava suavemente e de maneira instintiva, quando exibia suas belíssimas pernas, que Deus do alto de seu trono e poder, carinhosamente a presenteou. Hipólito ao ver o casal frequentemente passar, colocava em questão sua profícua imaginação: “Como serão os filhos de Cocô e Marciana, um dia quando virem ao mundo? Pigmeus ou raquíticos, mas talentosos assim como Cocô? Ou elegantes, vistosos e belíssimos, idênticos a Marciana?”.
O menino dentro de seu espírito ilusório e pureza de pensamentos, acreditava ter já nascido como um imutável felizardo, em poder conviver entre outros indeterminados acontecimentos, com a chamada fase de ouro da música popular brasileira. Em suas quase continuas andanças a cavalo, que lhe era atribuído, Hipólito costumava fazer ao longo do caminho percorrido, o seu mais sonhado e interminável palco imaginável. Quando quase ininterruptamente cantarolava, de maneira extremamente baixa e suave, quando mesmo só ele pudesse ouvir, as mais empolgantes e apaixonantes canções que na época se evidenciavam. A retratar melodias inesquecíveis de Ari Barroso, Lupcinio Rodrigues, Benedito Lacerda, Luiz Gonzaga e Noel Rosa, entre tantos outros talentos que só mesmo ele tivera a oportunidade de conhecer, através do radio, este, o mais importante veiculo de comunicação disponível ate então. Os seus principais ídolos cantores da época, se caracterizavam como Elizete Cardoso, Carmen Miranda, Vicente Celestino, Orlando Silva e Francisco Alves, este o incomparável Chico Viola, que para o rapaz se constituía como seu principal ídolo. Em finais de semana, quando aproveitava única e exclusivamente para brincar, Hipólito se deliciava fundamentalmente em finais de semana, ao ouvir através do receptor de radio, narrações emocionantes em transmissões esportivas, quando principalmente as mesmas eram realizadas, aos domingos à tarde. Quando os determinados jogos eram realizados em Porto Alegre, bem como São Paulo, e muito principalmente Rio de Janeiro, época em que era esta, a capital federal do Brasil. Vivendo em tais condições, o menino era extremamente consciente de si mesmo e dos seus próprios valores e limitações, quando conhecia cidades grandes, só mesmo através do seu fértil poder imaginativo. Em proficientes oportunidades, o garoto silenciosamente ouvia comentários por parte do seu pai e irmãos mais velhos, quando entre outros mais variados assuntos, também a conversa girava em torno de futebol, quando os mesmos entusiasticamente mencionavam o Internacional de Porto Alegre e seu craque principal Tesourinha, além da Sociedade Esportiva Palmeiras e ainda Flamengo e Vasco da Gama e seu principal atleta, Ademir de Menezes, entre outros grandes clubes. Dentro do seu mais intenso desejo de informar-se e aprender, o garoto permanecia completamente imóvel, a ter conhecimento de que futebol era jogado com bola de couro, bem diferente do que ele era acostumado a praticar na escola, oportunidade em que o mesmo ali na roça, era jogado unicamente com bolinhas de borracha. Alguns dias depois, o garoto já era informado através da crendice popular, de que em São Paulo, entre tantos outros renomados atletas profissionais, existia um jogador, cujo nome era Jair da Rosa Pinto, sendo o mesmo, dotado de um chute completamente arrasador cujo impacto em determinadas circunstancias, poderia tornar-se até mortal. Hipólito levado a persuadir tais fatos que não lhe pareciam inverdades, em situações que lhe eram impostas a estar solitário, recomeçava a sonhar com coisas de considerável importância e que poderia lhe acontecer ao longo da vida, como exemplo, encontrar-se um dia já como adulto, em uma tarde de domingo em pleno Estádio do Maracanã. Onde deveria estar acontecendo um sensacional clássico entre Flamengo e Palmeiras, quando ele deveria se posicionar no mais alto das arquibancadas, para assim poder melhor se proteger, dos verdadeiros canhonaços que deveriam ser desferidos pelo incomparável Jair da Rosa Pinto. Procedendo assim dessa maneira, sonhava ele poder pacificamente ouvir a famosa Charanga do Jaime tocar, bem como se sensibilizar com as cabeçadas do zagueiro Pavão, atleta rubro-negro, bem como as matadas de bola do “sempre imitado, mas nunca igualado” Dequinha, atleta lendário. Depois de desfazer-se momentaneamente de seu mundo interior de fantasias e sonhos, Hipólito retornava a seu prazeroso e jovial universo de realidades, oferecendo uma prece a São Jorge, seu santo padroeiro, com um insistente pedido, para que tanto o Flamengo como o Internacional se tornassem respectivamente campeões de seus próprios estados naquele mesmo ano.
A noite silenciosa do mês de agosto, se desenhava extremamente fria. Talvez na unidade de medição de temperatura, segundo a escala Celsius, ao ar livre oscilava em torno de -10° C. Enquanto o Minuano, vento gelado também conhecido como Andino, chegando da Cordilheira, assoviava sem piedade alguma, sobre os Tapa – Ventos do galpão. Hipólito sentado confortavelmente junto ao fogo de chão, contemplava tal situação, como um dos mais belos e atraentes espetáculos, que a natureza poderia lhe oferecer. Ao mesmo tempo, em sua frente, o mulato Napoleão Ferreira, que era também tratador de cavalos de corrida, se distraia de maneira imensurável, a relatar para o senhor João, os acontecimentos históricos relacionados à revolução do ano de 1932. Quando ele, integrando o célebre regimento Pé no Chão de Palmeiras das Missões, comandado pelo Coronel Finzinho de Assis. Segundo ainda suas esclarecedoras palavras, havia participado de encarniçados combates contra seus próprios irmãos brasileiros. Quando teve a oportunidade de sacrificar, mesmo contra sua própria vontade, alguns compatriotas seus. Hipólito, ao ouvir tal explanação, extremamente contrariado e desiludido, imediatamente procurou seus aposentos. Mas antes de entrar em suspensão normal e periódica da consciência e da vida (sono), a fazer juízo de tal fato, ainda interrogou-se: “Mas se estas guerras ou revoluções são tudo isto que falam, eu prometo a mim mesmo e a Deus, que quando crescer um pouco mais e me tornar adulto, Caudilho algum desse estado ou país, conseguirá me recrutar ou me levar à força, pois se quiserem me chamar de covarde (cobarde) a partir deste momento, poderão então assim proceder. Porque fugirei para o mais fundo dos matos, quando a viver somente entre os selvagens, passarei pelo restante de minha vida, a desfrutar unicamente de tudo o que a natureza nos concede. Ainda acredito que somente quando conseguir a viver apenas entre os irracionais, consiga eu me tornar o mais verdadeiramente racional entre os humanos”.

Mas em certa manhã sombria e úmida da estação hibernal, quando Hipólito se encontrava estudando na escola, situada mais ou menos a uma légua de distancia de sua morada, o menino em um momento passou a sentir leve dor de cabeça, preocupados, os professores, Lulo e Aninha, imediatamente lhe aconselharam a regressar a sua casa, para que a sua mãe a tomar conta da situação, lhe medicasse com chazinhos e remédios caseiros. O menino tomando então o caminho de retorno regressou em passos lentos. Mas quando se encontrava nas proximidades da  antiga encruzilhada do senhor Pedro Meira, foi despertado para um acontecimento totalmente imprevisto. Quando avistou a uma razoável distância, o que no momento lhe pareceu inverossímil. Mas só ao aproximar-se, que o pacifico, mas curioso menino conseguiu então determinar tal situação. Pois tratava-se de um cortejo fúnebre, que vagarosamente e dentro do possível, se aproximava. Hipólito, imediatamente num gesto da mais completa reverência, postou-se ao lado do caminho com o chapéu a mão. Na vanguarda encabeçando o cortejo, movimentava-se lentamente uma requintada carruagem puxada por uma excelente parelha de cavalos, quando o menino imediatamente pode constatar ser a mesma de propriedade do senhor Osvaldo Ribeiro de Quadros (parente Sinhô), que também no momento era o condutor. A cruz colocada em pé junto à tampa dianteira da carruagem, que se divisava a regular distância, sintetizava a prova mais evidente do que estava acontecendo. A seguir, centenas de cavaleiros perfilados, como que participando de um desfile militar, também se deslocavam com razoável lentidão. Em ambos os lados do caminho haviam saliências, produzidas pelo provável natural rebaixamento da estrada. Hipólito postando-se em um costado, na posição em que se encontrava quando a carruagem passou, conseguiu perfeitamente perceber o caixão, produzido com rústicas tabuas de Pinho, que no momento era colocado sobre o lastro da condução. Depois passou a distinguir através da percepção operada pela visão, a todos os cavaleiros, ate passar o último. Uns tagarelando, outros cabisbaixos, que a fixar de um a um o menino conseguiu identificar quase todos. A seguir Hipólito extremamente tomado de curiosidade, retomou então seu rumo, quando a refletir sobre o acontecimento, ficava se perguntando para onde se dirigia e de quem seria aquele funeral? Mas ao cruzar pela primeira pessoa conhecida, teve imediatamente o seu desejo de saber totalmente esclarecido. Pois foi informado por Valdemar, jovem e comunicativo, filho de dona Paulina, que aquela imensa caravana que recentemente passou, estaria acompanhando o corpo de negro Henrique, que havia falecido. Quando segundo o expansivo rapaz, os despojos mortais do referido cidadão, estariam sendo encaminhados para o cemitério velho, na saída para o campo, onde finalmente seriam depositados em uma escavação a sete palmos de profundidade. Igualmente a referida cruz, falquejada, tomando por base o cerne de Guajuvira ou Tarumã, que estaria acompanhando o cortejo, também seria plantada a alguns centímetros da cabeceira da sepultura. A partir daquele momento, Hipólito, passou a acreditar quando a meditar sobre o ocorrido, a não haver razão para alguém sentir-se demasiadamente fraco e a um só tempo encontrar excessivamente fortalezas em outras pessoas. Nos diversos dias em que sucedeu a esta ocorrência, Hipólito passou seguidamente a meditar sobre tal acontecimento, quando se perguntava: “Mas se este negro Henrique foi sempre o mais valente, o mais ginete e aparentemente o mais saudável, porque razão de um dia para outro, como disse um poeta, a morte china, maléva e traiçoeira que ate da pena” de repente sem ao menos pedir licença, invade o seu rancho, e ao mesmo tempo, sem encontrar o mínimo de resistência, implacavelmente o arrebata. A partir deste dia, o menino passou a acreditar que os humanos são frutos do amor de um mesmo pai, quando independente da origem, cor ou condição social, somos perfeitamente iguais. Somente a ele, este senhor onipotente, devemos nos humilhar. Somente a ele devemos nos curvar e consequentemente sobre a proteção deste infinito e misericordioso Pai, sem nada mais a temer, seremos eternamente fortes.