sábado, 11 de maio de 2013

Poesia Criança Abandonada


CRIANÇA ABANDONADA - MIGUEL ARNILDO GOMES

Criança que vive sem ternura,
sem Deus, sem amor, sem afeto.
Criança que vive sem poder viver,
sem ter o direito de poder chorar.

Criança que sem poder sorrir,
ainda da gargalhadas.
Criança que dorme debaixo da marquise,
ou na marginal do leito da rua.
Criança que dorme em folhas de jornais
e ali se prostitua.
Na verdade tão crua criança que sofre,
que pula, que dança, que canta para poder gritar.
Criança que vive sem ter esperança, sem paz,
sem preceitos, em tardes de sol ou em noites tão frias
sofrendo o amargor da vida vazia, sem ter direito de poder chorar.

História O Susto do Rubérbo


O SUSTO DO RUBÉRBO - MIGUEL ARNILDO GOMES

Cruzavam-se os anos quarenta, com o termino da segunda grande guerra mundial as coisas começaram então a fluir com um pouco mais de desembaraço. No estremo sul e muito principalmente na região do Planalto Médio e próspero Alto Jacuí, entre outras regiões, com o fim do ciclo da madeira, a agricultura começava a se desenvolver agora com maior intensidade. Também foi nesta década que a lavoura mecanizada começou a dar seus primeiros passos, ainda que timidamente, mas dentro de um processo gradual, a cada ano que passava, novos e novos tratores iam surgindo, das mais diversas marcas e modelos, sem que pudesse se perceber claramente, aos poucos as lavouras de trigo iam tomando conta dos antigos campos de barba de bode, campos estes, que por séculos serviram de pastagens, ainda que precariamente, mas servindo de alimento para muitos rebanhos de bovinos, ovinos, muares e eqüinos.

 Mas com o surgimento da mecanização da lavoura, mesmo engatinhando sempre novidades aos poucos iam acontecendo, como por exemplo, os fertilizantes para adubar a terra, os arados e grades niveladoras, as plantadeiras que enterravam as sementes e adubos e demais utensílios, todos estes chamados implementos agrícolas, que eram arrastados por um trator que também servia entre outras coisas, para puxar as primeiras colheitadeiras rebocadas, que inicialmente serviam apenas para ceifar e debulhar o produto.
Contudo o que causava maior admiração, era ouvir barulhos e ruídos de máquinas, o que veio mais decisivamente a revolucionar os nossos campos, pois até então, o único ronco no campo que cada individuo conhecia, era o berro dos touros, o relincho dos baguais e jumentos e ainda o ronco dos soturnos bugios em algum capão de mato.
Paralelo a estas atividades, na ânsia de também prosperar e buscar riquezas, os mandiocais alargavam ainda mais suas fronteiras, agora de uma maneira mais decisiva disputavam seus espaços. A cada ano, os agricultores adquiriam novas variedades de ramas de mandioca para serem plantadas, quando a colher uma pequena percentagem era consumida internamente,entre os planteis de bovinos e principalmente de suínos, mas a grande maioria era consumida pela industria da farinha, para isso sempre mais tafonas eram construídas, aproveitando-se as muitas centenas e até milhares de quedas d’água existentes.
Por onde que se andasse, era comum ouvir-se a distância, ruídos de roda d’água a movimentar, ralos, prensas, bem como para lavar o produto, que após ser encaminhado para o forno, se transformaria em farinha. Por isso na época naquelas imediações, não faltava emprego, que ia desde a aração, plantio, capina e mais tarde arrancação de mandioca e muito principalmente na industrialização de farinha e ainda a coleta e secagem de polvilho. Nos intervalos, a rapaziada se distraia comparecendo nas bodegas ou bolichos, onde não faltava as tradicionais carteadas de baralho, além de jogo de bochas, onde a grande maioria tinha por costume deliciar-se com a saborosa aguardente de cana, ou “canha” como era chamada, onde era servida como até hoje, nos tradicionais copos de vidro, quando a cada dose era representada como um trago e sempre ao final de cada rodada ou partida, pedia-se:
-          Por favor, sirva-me mais um trago.
No dia seguinte ainda de madrugada quando cantava o primeiro galo, já estava a peonada a postos para mais um dia de trabalho árduo, quando alguns peões, se encarregavam de carregar a mandioca e transporta-la e para isso em muitas oportunidades, teriam que suplantar difíceis obstáculos e muito principalmente atoleiros, trabalho este que se efetivava, da lavoura, até a tafona onde era o produto industrializado; transporte este que geralmente acontecia através de enormes carroções, puxados por fieiras ou ternos de bois, onde a junta do coice era engatada na carroça através de um cabeçalho, depois a junta de ligação, posteriormente a junta da ponta. A unificação entre estas três cangas, conseqüentemente entre as três juntas de bois, era efetivada através de correntes conhecidas como cambão, ou de uma peça muito resistente de couro cru torcido, a que se dava o nome de tamoeiro, quando os peões cumpriam a árdua tarefa muitas vezes enfrentando chuvas, sol, geadas e até neves, quando seguiam agitando a picana estalando o relho e falando com os bois.
Á alguns quilômetros da localidade que denominavam Barro Preto ou Guabijuzal, morava  Júlio Severo, mais conhecido como Ruberbo, rapaz dinâmico e trabalhador, que era filho por adoção de um casal muito estimado, que residiam já por alguns anos naquelas imediações, onde Ruberbo se criou trabalhando na agricultura, na plantação, capina e arrancação de mandiocas e por vezes até em lavouras de arroz d’água, erguendo taipas e virando leivas através do arado americano, ao final efetuando o corte, trabalho este que também era praticado manualmente, mas em épocas de farinhada, Rubérbo sempre dispunha de tempo para o serviço na própria indústria. Quando o verão cruzava e entrava-se no outono, o povo já se preparava para mais uma safra de farinha, a qual tinha-se por normas começar no início do mês de maio, trabalho este que se estenderia até o final de julho, suspendendo-se no inicio de agosto, por ser considerada já, a fase de rebrotas, mas sempre foi esta fase em atividade da industria da farinha o período em que os agricultores, tafoneiros e peões, mais ganhavam dinheiro, o que costumava dizer, mais se niquelava.
Numa oportunidade já em um final de quaresma, período este que segundo a religiosidade, considerada por todo o mundo cristão, como os dias de maior devoção, quando celebra-se o mistério da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e posteriormente a vossa Ressurreição. Como naqueles tempos vivia-se mais intensamente aqueles dias, quinta e sexta-feira da paixão, os agricultores guardavam então suas ferramentas de trabalho, passando a viver exclusivamente para Deus, participando da Vias Sacras e ainda do ato de adoração do Cristo crucificado. Como para muita gente, mesmo respeitando a Deus acima de todas as coisas, conseguia fazer uma mistura de religiosidade com superstição, conhecendo aqueles dias, como sendo quinta e sexta feira maior e acreditando que naquele período, como Jesus estando morto, o demônio se soltava e saia a noite atacar as pessoas, que por uma necessidade ou outra, precisassem sair.
Em uma certa sexta feira santa, enquanto centenas de fieis faziam suas penitências, ao reunir-se em torno das capelas, um grupo de amigos contrariando a todos os princípios a que se pode imaginar, decidiram em comum acordo procurar uma carteada, para isso não foi preciso hesitar, logo foi escolhido o local, que seria a bodega do Agenor, pessoa idônea que procurava tirar o sustento para sua família, de um pequeno estabelecimento comercial, situado a poucos metros do local conhecido como; Serrinho do Térezio. De inicio a conversa foi amena quando falava-se devagar, como que pedindo-se perdão, pelo fato de haverem procurado uma jogatina naquele dia santo, que na concepção de todos, teria que ser dedicado apenas a penitencias e orações. Logo em seguida para esquentar o clima, pediram um trago e a seguir mais um trago de canha, quando neste embalo o alcezito de nove ou pife começou a correr solto durante toda tarde, entrando-se noite adentro, tudo isto entre um trago e outro, mas quando suspenderam o jogo, atendendo-se a um pedido do proprietário e já embalados pelo efeito do álcool, só ai então pressentiram a grande asneira que haviam cometido.
 De uma hora para outra, voltaram a mudar o tom de voz e recomeçaram a falar em voz baixa, quando a conversa girava em torno de planos para os meses seguintes e do trabalho difícil que estaria para acontecer. Na medida em que os mais eufóricos contavam pausadas histórias, entre todos os participantes destacava-se Rubérbo, filho adotivo do Seu Timóteo e de Dona Josefa, que na condição de rapaz esclarecido, falava das proezas que um dia havia praticado, quando servira em um regimento de cavalaria na cidade de São Gabriel, quando participara inclusive de manobras militares das mais importantes, falava ainda das belas moças, que tivera oportunidade de conhecer na terra dos marechais. Porém quando chegou a meia noite, aconteceu novamente uma pausa, quando todos foram unânimes em afirmar serem pecadores, quando alguém entre o grupo ponderou, que com certeza Jesus lhes compreenderia e iria lhes perdoar, pelo fato de estarem àquela hora em uma mesa de jogatina, naquele dia tão sagrado e importante para o cristianismo. A seguir despediram-se e cada um tomou o rumo de seu lar, não havia lua e a noite era por demais escura, Rubérbo caminhava sozinho na calada da noite e teria obrigatoriamente que cruzar pelo Guabijuzal, ou Barro Preto, onde havia um pontilhão e ainda uma encruzilhada e que segundo comentava-se, por pessoas que não costumavam a mentir e que cruzando por aquele local em noites de sexta feira, haviam se dado de cara com o lobisomem e que até mesmo o Boi Tatá, já havia sido visto por aquelas imediações, o que era testemunhado por pessoas da verdade e sérias. Rubérbo naquele instante, quando apenas o canto do grilo e o coaxar das rãs quebravam o silêncio da noite, começou a imaginar tudo isso, lembrou ainda que teria que passar também pelo Angico Torto, onde gaudérios caminhando à noite teriam se deparado com terríveis assombrações, inclusive o Saci Pererê, já havia saltado em certa ocasião na garupa de um ginete que por ali cruzava. Quando ainda ao lembrar, que sua casa estava um pouco distante, mas que deveria confiar no taco, pois era ele Rubérbo, considerado um recordista em corridas a pé, o que o tornara famoso desde os tempos de quartel. Primeiro ouviu um berro de touro a grande distância, quando o rumo parecia ser mais ou menos, o da casa de Seu Belizário, na encosta do rio, a seguir mais um berro que ele constatou estar já bem mais próximo, quando o corajoso rapaz, mesmo assim começou a sentir um arrepio que começava no cangote e na medida em que lhe correndo, pela espinha dorsal, o mesmo chegava-lhe ao calcanhar. Foi nesta condição então que Rubérbo não parou para pensar, de um momento para outro passou a desferir violenta disparada e quanto mais corria, mais o berro se aproximava, a certa altura já na ânsia de escapar, sentira que o bicho quase lhe pisava no garrão, chegou a sentir um sopro no pescoço, que só parou quando Rubérbo alcançou o pátio e entrou varanda adentro. Depois deste susto do Rubérbo, episodio este que se tornou por demais conhecido, nunca mais alguém ouviu falar por aquelas bandas, que chiruzada alguma se reunisse nas sextas feiras santas em algum bolicho, para participar de jogatinas e tomar tragos.

Poesia Meu Padrinho São Miguel


MEU PADRINHO SÃO MIGUEL - MIGUEL ARNILDO GOMES


Como o filho de centauro ele nasceu
Neste mundo que foi seu
Carregado de esperanças
De verdes sonhos floresceram as campinas,
Moldaram-se as cavatinas,
No frondejar da existência.

O sinhozinho foi levado a igrejinha,
Nos braços de sua madrinha
Recebido com carinho.
A sua mãe vestida com o supremo manto
Convidou o próprio santo,
Para ser o seu padrinho.

“A benção! Meu padrinho São Miguel!”,
“A benção! Meu padrinho São Miguel!”.
A sua benção pedia vô sinhozinho,
Que encontrara em São Miguel,
Seu protetor, seu padrinho.

Pelas planuras e sagas dos descampados
Sinhozinho foi criado,
Domando e semeando amor.
No próprio culto, a devoção mais fiel,
Encontrou em São Miguel
Seu eterno protetor.

Poesia Vôo de Andorinhas


VÔO DE ANDORINHAS - MIGUEL ARNILDO GOMES

Andorinhas voam em bando,
perdida há uma só.
Habituam-se a dizer,
que sozinha não faz verão.
Um só vôo de andorinha
é a réplica da solidão.
Somente o vôo coletivo
alucinante e altivo
sintetiza integração.
Entre montes e horizontes,
da morte buscando vida,
perdida voa uma só.

Muitas asas se agitam,
no anseio de ser feliz.
Junto à torre da matriz,
ou sobre o teto dos galpões.
Num lenitivo de emoções,
num caracol que se estiliza,
neste adorno que simboliza,
a analogia da paz,
a beleza mais primaz.
Talvez busque-se o infinito
no vigor sereno e bonito
para um rimance de mil canções.

Ao findar a primavera,
saudando outra estação
surgem em arribação
quebrando a monotonia
A formar a sinfonia
no painel desta versão.
Na magia da ilusão
que consegue ser mais linda,
nesta beleza infinda
são milhares de andorinhas,
porque uma voando sozinha
nunca, nunca faz verão.

Poesia Sonhador


SONHADOR - MIGUEL ARNILDO GOMES

Madrugada deserta sem poncho ou cobertas
Minha mente desperta sob céu tão azul
Uma estrela caliente a me iluminar
Pronto a me guiar o Cruzeiro do Sul

A ficção me revela ao abrir-me a janela
No poema aristocrata me torno sonhador
Qual pássaro voador richador sem ser triste
Não querendo impor limites a esse mundo de amor

Se te pisei em cima, pelo poder da rima te peço perdão
Minha irmã, meu irmão, até quando acertei,
Ou mesmo quando errei, se agi pela razão ou pelo coração?
Se sigo meu instinto, não sinto, não falo,
Ao tranco do cavalo da inspiração.

São tantas as injustiças de ódio e cobiças
Gerando agruras entre multidões
Quais estrelas no céu e que fossem contadas
Quando enumeradas dariam milhões e milhões

Hoje setuagenário neste mundo arbitrário
Que absorve ou condena, a pensar tenho pena
E torno- me silente, sinto em minha mente
Quando ponho-me a pensar que só pode julgar o Deus onipotente.

Ao senhor bom pastor guia e protetor
Nossa fé, nossa luz, oh imutável patrão
A sua proteção para um mundo de paz
Aqui somos iguais, somos todos irmãos.

História Vaqueanos ou Tapejaras


VAQUEANOS OU TAPEJARAS - MIGUEL ARNILDO GOMES

Atingia-se quase o final da primeira metade do século XX, a agricultura no Rio Grande do Sul, intensificava-se a cada safra, com relativo aumento de produção.
Os agricultores, porém, quando na sua absoluta proporção, já dependiam de uma reduzida área de terras para poder sobreviver, a cada ano, nas mais variadas zonas e das mais diversas regiões agrícolas do estado, a falta de espaço para que se pudesse produzir, já começava a evidenciar-se.
Quanto ao fator escolaridade, cada vez mais se tornava patente, em qualquer recanto, a cada ano aumentava o número de educandários, a nível municipal ou até particular, quando a raras exceções, as crianças a partir de oito anos eram matriculadas estudando desde a primeira, até a conclusão da quarta série, que acontecia geralmente depois dos doze anos, quando eram aprovados, ao participarem de provas em finais de ano.
Uma vez concluído o curso primário, eram também tidos como aptos a enfrentar nos seus mais diversos níveis, a vida na roça. Era comum ouvir-se de um pai, ou de uma mãe assim se expressar: - O meu filho, já completou o curso primário, para se defender já aprendeu o suficiente, agora sem mais nada ter como obrigação, vai ter que pegar a enxada e trabalhar ao nosso lado, para aprender como o alimento, no dia –a –dia, chega a nossa mesa.
   Como haviam raríssimos privilegiados, que ao descender-se de pais em condições financeiros superior, eram estes matriculados em colégio em regime de internato, até a conclusão do curso ginasial, deixando-se o curso médio e até superior, para raríssimas exceções.
As famílias naquela época constituíam-se a partir de dois, até treze em casos especiais chegando a quatorze ou quinze filhos.
No interior do estado mais meridional e principalmente nas regiões de colonização, as propriedades cada vez mais se apequenavam, a população somava-se e até multiplicava-se em fração de uma década, quando surgia a questão, quem casa quer casa, mas para quem trabalha na terra, quem casa também quer terra e assim procedia-se, quando jovens casais decidiam adentrar no processo familiar, cada vez mais sucessivamente, passavam a depender de uma menor partilha de terras para que nelas pudessem produzir o suficiente, quando mesmo ao compor um sistema de vida modesta, viriam inevitavelmente a usufruir as mínimas condições de sobrevivência.
Planejar o número de filhos salvo em alguns casos tornava-se impraticável, pois controlar a natalidade até então, fugia aos conceitos básicos da família e aos princípios religiosos, se já existiam alguns métodos anticoncepcionais, estes não eram divulgados.
  Quando alguém audaciosamente, tomava a liberdade de perguntar a um casal de noivos, com relação ao número de filhos, que ao casar pretenderiam ter, a resposta chegava a ser uma unanimidade ao partir da moça: - Isto depende de Deus, quantos Ele nos der! Relação sexual antes do casamento naquele tempo constituía-se como prática a imoralidade, por considerar-se este ato, violável aos preceitos tanto da ordem familiar, quanto da própria sociedade. Também a questão da virgindade tornava-se uma afirmação dos deveres da mulher, quanto à honra e dignidade, pois a moça que não permanecesse virgem até o momento sagrado do matrimônio, segundo os bons costumes, não estaria digna de ao receber o sagrado sacramento, vestir-se de noiva com véu e grinalda.
Quanto ao homem, seguindo idênticos padrões religiosos, pregava-se o mesmo conceito, mas raramente obedecendo-se, sendo comum, rapazes a partir de dezoito anos, já serem vistos freqüentando casas de prostituição.    
Naqueles tempos no extremo sul, a agricultura quase na sua totalidade, ainda voltava-se para o regime de economia familiar, eram os produtos depois de colhidos, cuidadosamente secados e armazenados em diferentes tuias, ao ser destinados para o consumo da família, comercializando-se os excessos, não se relacionando entre esses, a mandioca, quando se tinha por normas, destinar-se à parte principal para a indústria de farinha ou de fécula, deixando-se para o consumo interno, a menor parte.
Esta agricultura de ordem familiar originava-se de pequenas propriedades e vinham obrigatoriamente acompanhados de uma mini-pecuária e avicultura, sendo também os produtos desta origem, na sua parte principal consumidos internamente, comercializando-se o restante, além de alguns derivados.
Nos finais de semana, principalmente aos domingos e dias santos, as famílias de agricultores reuniam-se em comunidades, principalmente em torno das capelas, quando os jovens, moças e rapazes, participavam ativamente de jogos de prendas e reuniões dançantes, diversões estas que vinham obrigatoriamente antecipadas, pela oração do culto ou da santa missa, cerimônias estritamente dirigidas aos membros da Comunidade Católica, mas que em determinadas capelas, tinha-se como hábito, receber jovens praticantes de outras tendências religiosas.
No afã de participar da diversão e lazer, ao compor um só rebanho, irmanavam-se, quando ao serem convocados adentrar a Igreja, fazia-se pela ordem, obedecendo-se as seguintes normas: homens, rapazes e meninos, ao ingressar, iam tomando posição pela ala direita, cabendo às mulheres casadas, moças e meninas ocupar o espaço na parte lateral esquerda da Igreja. Conta-se que em certa oportunidade, Laurinho, filho primogênito de D.Tereza, ao se encontrar tremendamente apaixonado por Luzia, filha de Seu Augusto, cometera o ato de rebeldia ao tentar acompanhá-la, posicionando-se por entre as mulheres, fato este digno de registro e considerado de total indisciplina por parte dos fabriqueiros, quando puxado por uma orelha pelo senhor Genaro, foi o moço orientado a ocupar o lugar que por direito lhe cabia, situando-se por entre os homens.
Nas mais diversas regiões agrícolas, as colônias eram formadas a partir das mais variadas raças e origens de imigrantes, por onde os mais diversos sotaques fundiam-se, entre eles, germânicos, italianos, poloneses, ucranianos, africanos, mas englobando-se entre esses, grande número de descendentes portugueses, espanhóis e alguns de origem nativa, que ao entrosar-se, passavam a adquirir mais ou menos os mesmos hábitos, ao ser derivados na maioria das vezes de famílias numerosas, passavam a compartilhar das mesmas teorias e ensinamentos, obedecendo-se os mesmos conceitos.
Quando os padres a uma vez por mês deixavam as paróquias, dirigindo-se as capelas para rezar a santa missa, realizava-se constantemente batizados, e esporadicamente alguns casamentos, pois estes se obedecendo a um outro conjunto de formalidades, eram geralmente celebrados na Igreja Paroquial, cerimônias estas, que na maioria das vezes, contava com um relativo número de convidados, quando processavam o acompanhamento aos noivos, de ida e volta, transporte este que acontecia, através de carrocinhas toldadas, diligências charretes e até em carrocerias de caminhões, quando os noivos faziam jus a estas homenagens, cabia aos pais, como até os dias de hoje, agraciar aos nubentes, bem como aos convidados, com uma grande festa de confraternização.       
Uma história pitoresca que despertou grande comoção, que ainda hoje é transmitida de pais para filhos e de avós para netos, pelo fato de ter acontecido no salão de bailes do Seu Jerônimo, quando o rapaz de boa índole chamado Valdemar, cometeu o ato inaceitável e de extrema imoralidade, ao beijar em plena pista de dança, a sua namoradinha Verônica, sob os olhares incrédulos de dezenas de participantes.
Na segunda-feira seguinte, foram Valdemar e Verônica na companhia dos pais e do comissário, levados até a delegacia de polícia da cidade, quando uma vez o fato registrado e comprovado, foram encaminhados ao cartório, aonde sem honras e saudações aconteceu o casamento.
A cada ano que passava, mesmo ao se adquirirem novas técnicas, as propriedades mais se fragilizavam, pois sempre ao casar um filho homem, os pais tinham como obrigação, tirar um pedaço de terra que lhes pertencia, para ajudá-lo a dar o primeiro impulso. Terra sobrando existia em largas proporções, em qualquer região, mesmo quando poderiam tornar-se produtivas permaneciam na ociosidade, ao continuar entregues a grandes proprietários, que exploravam até então, pequenas partes. Foi em tais circunstâncias, que começou o chamado êxodo rural, quando jovens provindos das mais diversas regiões agrícolas, impregnados pelo sonho de uma vida mais digna, ao deixar se elevar pela fantasia de um salário justo passavam a incorporar as vilas cada vez mais pobres, das pequenas e grandes cidades.
Foi também neste período, que alguns conhecedores de caminhos, vaqueanos ou tapejaras, quando na ânsia de procurar ajudar, começaram a introduzir entre os colonos das mais diversas zonas produtivas, a concepção de que nas regiões sudoeste e oeste, entre outras regiões do estado do Paraná, existiam verdadeiros sertões a serem desbravados, o que seriam de terras extremamente férteis, que uma vez colonizadas, com toda a certeza tornar-se-iam extraordinariamente produtivas. Foi nesse espaço de tempo, que principalmente jovens casais de produtores, agora num processo bem mais acentuado, passaram a vender suas pequenas propriedades e influenciados pelo desejo de oferecer um futuro mais promissor a seus filhos.
Neste decurso, uns deixando a serem elevados pelos outros, aconteceu a debanda de dezenas de milhares de famílias gaúchas, que davam adeus a seus familiares e amigos, ao transferirem-se num gesto de profunda grandeza, passavam a habitar junto a muitos nativos e não menos bravos pioneiros, que paralelos a milhares de proprietários de serrarias, que efetuavam o corte e beneficiamento da madeira, já introduziam nessas regiões promissoras, uma agricultura que muito rapidamente passou a ser modernizada e voltada para um processo de desenvolvimento extremamente acelerado.
Assim vivendo em outra situação determinante, podiam os novos habitantes acordar em todas as manhãs, ouvindo o canto sonoro da gralha azul, a ave símbolo do estado das araucárias.
Por entre os belos pinherais, formaram-se vilas, que passaram a desenvolver-se num segmento de extrema rapidez. Figurando por entre esse processo de transição, uma série de acontecimentos digna de memória decorrente das mais diversas circunstâncias, algumas que tiveram como causa determinante e até curiosa, foi à história de Antério, peão de estância, que tomado pela ânsia ao ver a sua prenda partir, tomou a decisão mais corajosa, soltou seu cavalo num fundo de invernada, ao colocar seus pertences em uma mala de garupa, pegou carona na carroceria de um velho caminhão, tomando o rumo do Paraná, onde impulsionado por um duplo prazer, fez com que deixasse pedaços de sua bombacha, dependurados nos espinho dos pés de unhas- de- gato, da nova terra, onde ao lado de tantos outros abnegados agricultores, ajudou a fazer parte deste decurso.
Dentro desta proporcionalidade, foram muitos os gaúchos e bem aventurados agricultores, que alcançaram através do suor de seu trabalho, a glorificação de ter participado, da afirmação agrícola das regiões sudoeste, oeste e até noroeste deste estado, onde foram tantos os Joãos, as Marias, os Osvaldos, as Letícias, entre milhares de tantos outros nomes, que ajudaram e que ainda hoje continuam fazendo, com que índices de produtividades, alcancem níveis jamais atingidos em outras regiões agrícolas do país.
Hoje aí está a resulta das sementes que foram semeadas, que geraram frutos, também hoje aí estão, os descendentes desses agricultores, que num esforço comunitário formaram vilas, por entre estas terras produtivas e férteis, muitas destas vilas se desenvolveram, tornando-se grandes cidades, que muito orgulham aos paranaenses, que por demais contribuem, através do comércio, da indústria, entre outros setores, para o engrandecimento cada vez maior deste estado.
Neste pouco mais de meio século, por aí estão, ainda entre alguns deles, filhos, netos e até bisnetos destes destemidos agricultores, que um dia nesta terra, também propuseram-se a plantar a fé e a esperança em dias melhores, viajantes que ao chegar tiveram como porta de acesso, para a grande parte do sudoeste e na maioria das vezes também para ao oeste, a querida e hospitaleira Clevelândia, que na condição de uma menina sorridente ao dar boas vindas, acenava a todos aqueles que por este portal transitaram, e entre todos esses, alguns viajeiros que também nesta terra erradicaram-se, campeiros, colonos e citadinos que ao juntar-se aos valorosos nativos e também aos pioneiros destas regiões, a recomeçar a partir daí bem mais acentuadamente, um intercâmbio cultural, que já a tempo se desenhava e que agora passara a se definir entre o Rio Grande do Sul e o Paraná.  
Hoje estão aí na sua absoluta maioria, os descendentes destes sonhadores, são os agricultores, mas são também os moradores das inúmeras cidades, que compõe principalmente a região sudoeste e oeste paranaense, que ao unir-se, imbuídos pelos mesmos princípios e objetivos, continuam a ser também, descendentes dos velhos chimangos ou maragatos, gremistas ou colorados, viajantes ou oriundos destes, mas ao tornarem-se conhecedores de caminhos, voltam a transformarem-se em vaqueanos ou tapejaras e daí a insígnia, que um dia prazerosamente oferecemos a uma entidade tradicionalista da região, que ao tornar-se notória, passou a ser adotada como lema:
Se o ideal deles foi descobrir caminhos, prossigamos nesta caminhada.

Poesia Vida de Balseiro


VIDA DE BALSEIRO - MIGUEL ARNILDO GOMES

(à memória de meu amigo Dionísio Prestes e outros balseiros do Rio Uruguai)

Neste meu santo eu dei um banho lá na sanga
para que desse enchente ainda essa semana.
São Pedro atendeu o meu pedido e ainda hoje,
sigo no rumo de Uruguaiana.

Choveu, choveu, e o rio encheu,
Tarugos e gravatas que se prendem,
balsa que desliza e que se vai
e que segue embalando sobre o leito
do velho Rio Uruguai.

Rema pra o lado de Santa Catarina, companheiro,
rema parceiro pra banda do Rio Grande,
Lá vai a balsa!
Nos leva à correnteza deste rio,
se Deus quiser, nos traz de volta a Maria Fumaça.

Balseiro empleiteiro deste rio onde é minha lida,
meu mundo, minha vida.
Cuidado com a enseada grita o observador,
Ao desviar a fortaleza, proezas de remador.

Rema pra o lado da Argentina companheiro,
Rema parceiro, pra banda do Rio Grande,
Lá vai a balsa!
Nos leva a correnteza deste rio,
se Deus quiser, nos traz de volta a Maria Fumaça.