sábado, 11 de maio de 2013

História Vaqueanos ou Tapejaras


VAQUEANOS OU TAPEJARAS - MIGUEL ARNILDO GOMES

Atingia-se quase o final da primeira metade do século XX, a agricultura no Rio Grande do Sul, intensificava-se a cada safra, com relativo aumento de produção.
Os agricultores, porém, quando na sua absoluta proporção, já dependiam de uma reduzida área de terras para poder sobreviver, a cada ano, nas mais variadas zonas e das mais diversas regiões agrícolas do estado, a falta de espaço para que se pudesse produzir, já começava a evidenciar-se.
Quanto ao fator escolaridade, cada vez mais se tornava patente, em qualquer recanto, a cada ano aumentava o número de educandários, a nível municipal ou até particular, quando a raras exceções, as crianças a partir de oito anos eram matriculadas estudando desde a primeira, até a conclusão da quarta série, que acontecia geralmente depois dos doze anos, quando eram aprovados, ao participarem de provas em finais de ano.
Uma vez concluído o curso primário, eram também tidos como aptos a enfrentar nos seus mais diversos níveis, a vida na roça. Era comum ouvir-se de um pai, ou de uma mãe assim se expressar: - O meu filho, já completou o curso primário, para se defender já aprendeu o suficiente, agora sem mais nada ter como obrigação, vai ter que pegar a enxada e trabalhar ao nosso lado, para aprender como o alimento, no dia –a –dia, chega a nossa mesa.
   Como haviam raríssimos privilegiados, que ao descender-se de pais em condições financeiros superior, eram estes matriculados em colégio em regime de internato, até a conclusão do curso ginasial, deixando-se o curso médio e até superior, para raríssimas exceções.
As famílias naquela época constituíam-se a partir de dois, até treze em casos especiais chegando a quatorze ou quinze filhos.
No interior do estado mais meridional e principalmente nas regiões de colonização, as propriedades cada vez mais se apequenavam, a população somava-se e até multiplicava-se em fração de uma década, quando surgia a questão, quem casa quer casa, mas para quem trabalha na terra, quem casa também quer terra e assim procedia-se, quando jovens casais decidiam adentrar no processo familiar, cada vez mais sucessivamente, passavam a depender de uma menor partilha de terras para que nelas pudessem produzir o suficiente, quando mesmo ao compor um sistema de vida modesta, viriam inevitavelmente a usufruir as mínimas condições de sobrevivência.
Planejar o número de filhos salvo em alguns casos tornava-se impraticável, pois controlar a natalidade até então, fugia aos conceitos básicos da família e aos princípios religiosos, se já existiam alguns métodos anticoncepcionais, estes não eram divulgados.
  Quando alguém audaciosamente, tomava a liberdade de perguntar a um casal de noivos, com relação ao número de filhos, que ao casar pretenderiam ter, a resposta chegava a ser uma unanimidade ao partir da moça: - Isto depende de Deus, quantos Ele nos der! Relação sexual antes do casamento naquele tempo constituía-se como prática a imoralidade, por considerar-se este ato, violável aos preceitos tanto da ordem familiar, quanto da própria sociedade. Também a questão da virgindade tornava-se uma afirmação dos deveres da mulher, quanto à honra e dignidade, pois a moça que não permanecesse virgem até o momento sagrado do matrimônio, segundo os bons costumes, não estaria digna de ao receber o sagrado sacramento, vestir-se de noiva com véu e grinalda.
Quanto ao homem, seguindo idênticos padrões religiosos, pregava-se o mesmo conceito, mas raramente obedecendo-se, sendo comum, rapazes a partir de dezoito anos, já serem vistos freqüentando casas de prostituição.    
Naqueles tempos no extremo sul, a agricultura quase na sua totalidade, ainda voltava-se para o regime de economia familiar, eram os produtos depois de colhidos, cuidadosamente secados e armazenados em diferentes tuias, ao ser destinados para o consumo da família, comercializando-se os excessos, não se relacionando entre esses, a mandioca, quando se tinha por normas, destinar-se à parte principal para a indústria de farinha ou de fécula, deixando-se para o consumo interno, a menor parte.
Esta agricultura de ordem familiar originava-se de pequenas propriedades e vinham obrigatoriamente acompanhados de uma mini-pecuária e avicultura, sendo também os produtos desta origem, na sua parte principal consumidos internamente, comercializando-se o restante, além de alguns derivados.
Nos finais de semana, principalmente aos domingos e dias santos, as famílias de agricultores reuniam-se em comunidades, principalmente em torno das capelas, quando os jovens, moças e rapazes, participavam ativamente de jogos de prendas e reuniões dançantes, diversões estas que vinham obrigatoriamente antecipadas, pela oração do culto ou da santa missa, cerimônias estritamente dirigidas aos membros da Comunidade Católica, mas que em determinadas capelas, tinha-se como hábito, receber jovens praticantes de outras tendências religiosas.
No afã de participar da diversão e lazer, ao compor um só rebanho, irmanavam-se, quando ao serem convocados adentrar a Igreja, fazia-se pela ordem, obedecendo-se as seguintes normas: homens, rapazes e meninos, ao ingressar, iam tomando posição pela ala direita, cabendo às mulheres casadas, moças e meninas ocupar o espaço na parte lateral esquerda da Igreja. Conta-se que em certa oportunidade, Laurinho, filho primogênito de D.Tereza, ao se encontrar tremendamente apaixonado por Luzia, filha de Seu Augusto, cometera o ato de rebeldia ao tentar acompanhá-la, posicionando-se por entre as mulheres, fato este digno de registro e considerado de total indisciplina por parte dos fabriqueiros, quando puxado por uma orelha pelo senhor Genaro, foi o moço orientado a ocupar o lugar que por direito lhe cabia, situando-se por entre os homens.
Nas mais diversas regiões agrícolas, as colônias eram formadas a partir das mais variadas raças e origens de imigrantes, por onde os mais diversos sotaques fundiam-se, entre eles, germânicos, italianos, poloneses, ucranianos, africanos, mas englobando-se entre esses, grande número de descendentes portugueses, espanhóis e alguns de origem nativa, que ao entrosar-se, passavam a adquirir mais ou menos os mesmos hábitos, ao ser derivados na maioria das vezes de famílias numerosas, passavam a compartilhar das mesmas teorias e ensinamentos, obedecendo-se os mesmos conceitos.
Quando os padres a uma vez por mês deixavam as paróquias, dirigindo-se as capelas para rezar a santa missa, realizava-se constantemente batizados, e esporadicamente alguns casamentos, pois estes se obedecendo a um outro conjunto de formalidades, eram geralmente celebrados na Igreja Paroquial, cerimônias estas, que na maioria das vezes, contava com um relativo número de convidados, quando processavam o acompanhamento aos noivos, de ida e volta, transporte este que acontecia, através de carrocinhas toldadas, diligências charretes e até em carrocerias de caminhões, quando os noivos faziam jus a estas homenagens, cabia aos pais, como até os dias de hoje, agraciar aos nubentes, bem como aos convidados, com uma grande festa de confraternização.       
Uma história pitoresca que despertou grande comoção, que ainda hoje é transmitida de pais para filhos e de avós para netos, pelo fato de ter acontecido no salão de bailes do Seu Jerônimo, quando o rapaz de boa índole chamado Valdemar, cometeu o ato inaceitável e de extrema imoralidade, ao beijar em plena pista de dança, a sua namoradinha Verônica, sob os olhares incrédulos de dezenas de participantes.
Na segunda-feira seguinte, foram Valdemar e Verônica na companhia dos pais e do comissário, levados até a delegacia de polícia da cidade, quando uma vez o fato registrado e comprovado, foram encaminhados ao cartório, aonde sem honras e saudações aconteceu o casamento.
A cada ano que passava, mesmo ao se adquirirem novas técnicas, as propriedades mais se fragilizavam, pois sempre ao casar um filho homem, os pais tinham como obrigação, tirar um pedaço de terra que lhes pertencia, para ajudá-lo a dar o primeiro impulso. Terra sobrando existia em largas proporções, em qualquer região, mesmo quando poderiam tornar-se produtivas permaneciam na ociosidade, ao continuar entregues a grandes proprietários, que exploravam até então, pequenas partes. Foi em tais circunstâncias, que começou o chamado êxodo rural, quando jovens provindos das mais diversas regiões agrícolas, impregnados pelo sonho de uma vida mais digna, ao deixar se elevar pela fantasia de um salário justo passavam a incorporar as vilas cada vez mais pobres, das pequenas e grandes cidades.
Foi também neste período, que alguns conhecedores de caminhos, vaqueanos ou tapejaras, quando na ânsia de procurar ajudar, começaram a introduzir entre os colonos das mais diversas zonas produtivas, a concepção de que nas regiões sudoeste e oeste, entre outras regiões do estado do Paraná, existiam verdadeiros sertões a serem desbravados, o que seriam de terras extremamente férteis, que uma vez colonizadas, com toda a certeza tornar-se-iam extraordinariamente produtivas. Foi nesse espaço de tempo, que principalmente jovens casais de produtores, agora num processo bem mais acentuado, passaram a vender suas pequenas propriedades e influenciados pelo desejo de oferecer um futuro mais promissor a seus filhos.
Neste decurso, uns deixando a serem elevados pelos outros, aconteceu a debanda de dezenas de milhares de famílias gaúchas, que davam adeus a seus familiares e amigos, ao transferirem-se num gesto de profunda grandeza, passavam a habitar junto a muitos nativos e não menos bravos pioneiros, que paralelos a milhares de proprietários de serrarias, que efetuavam o corte e beneficiamento da madeira, já introduziam nessas regiões promissoras, uma agricultura que muito rapidamente passou a ser modernizada e voltada para um processo de desenvolvimento extremamente acelerado.
Assim vivendo em outra situação determinante, podiam os novos habitantes acordar em todas as manhãs, ouvindo o canto sonoro da gralha azul, a ave símbolo do estado das araucárias.
Por entre os belos pinherais, formaram-se vilas, que passaram a desenvolver-se num segmento de extrema rapidez. Figurando por entre esse processo de transição, uma série de acontecimentos digna de memória decorrente das mais diversas circunstâncias, algumas que tiveram como causa determinante e até curiosa, foi à história de Antério, peão de estância, que tomado pela ânsia ao ver a sua prenda partir, tomou a decisão mais corajosa, soltou seu cavalo num fundo de invernada, ao colocar seus pertences em uma mala de garupa, pegou carona na carroceria de um velho caminhão, tomando o rumo do Paraná, onde impulsionado por um duplo prazer, fez com que deixasse pedaços de sua bombacha, dependurados nos espinho dos pés de unhas- de- gato, da nova terra, onde ao lado de tantos outros abnegados agricultores, ajudou a fazer parte deste decurso.
Dentro desta proporcionalidade, foram muitos os gaúchos e bem aventurados agricultores, que alcançaram através do suor de seu trabalho, a glorificação de ter participado, da afirmação agrícola das regiões sudoeste, oeste e até noroeste deste estado, onde foram tantos os Joãos, as Marias, os Osvaldos, as Letícias, entre milhares de tantos outros nomes, que ajudaram e que ainda hoje continuam fazendo, com que índices de produtividades, alcancem níveis jamais atingidos em outras regiões agrícolas do país.
Hoje aí está a resulta das sementes que foram semeadas, que geraram frutos, também hoje aí estão, os descendentes desses agricultores, que num esforço comunitário formaram vilas, por entre estas terras produtivas e férteis, muitas destas vilas se desenvolveram, tornando-se grandes cidades, que muito orgulham aos paranaenses, que por demais contribuem, através do comércio, da indústria, entre outros setores, para o engrandecimento cada vez maior deste estado.
Neste pouco mais de meio século, por aí estão, ainda entre alguns deles, filhos, netos e até bisnetos destes destemidos agricultores, que um dia nesta terra, também propuseram-se a plantar a fé e a esperança em dias melhores, viajantes que ao chegar tiveram como porta de acesso, para a grande parte do sudoeste e na maioria das vezes também para ao oeste, a querida e hospitaleira Clevelândia, que na condição de uma menina sorridente ao dar boas vindas, acenava a todos aqueles que por este portal transitaram, e entre todos esses, alguns viajeiros que também nesta terra erradicaram-se, campeiros, colonos e citadinos que ao juntar-se aos valorosos nativos e também aos pioneiros destas regiões, a recomeçar a partir daí bem mais acentuadamente, um intercâmbio cultural, que já a tempo se desenhava e que agora passara a se definir entre o Rio Grande do Sul e o Paraná.  
Hoje estão aí na sua absoluta maioria, os descendentes destes sonhadores, são os agricultores, mas são também os moradores das inúmeras cidades, que compõe principalmente a região sudoeste e oeste paranaense, que ao unir-se, imbuídos pelos mesmos princípios e objetivos, continuam a ser também, descendentes dos velhos chimangos ou maragatos, gremistas ou colorados, viajantes ou oriundos destes, mas ao tornarem-se conhecedores de caminhos, voltam a transformarem-se em vaqueanos ou tapejaras e daí a insígnia, que um dia prazerosamente oferecemos a uma entidade tradicionalista da região, que ao tornar-se notória, passou a ser adotada como lema:
Se o ideal deles foi descobrir caminhos, prossigamos nesta caminhada.

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